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Sempre me encantaram mais as vozes roucas consumidas pelo álcool. As flores mortas já sem aquele esplendor que encanta a maioria das pessoas me deixam profundamente emocionada. Não que eu goste da decadência, adoro as coisas belas, mas vejo o belo em lugares bem esquecidos. Minha mãe morre de orgulho de seu jardim e eu poucas vezes me interessei em fotografá-lo mas hoje senti uma profunda dor vendo as rosas velhas caidas no chão prestes a irem para o lixo. Eu precisei fotografá-las, não tive escolha.

 Radiola: Strange Fruit com Billie Holiday.

Ela se vestiu toda, preparou-se como se para uma festa, camisa oficial branca com duas tiras no peito, uma rubra e outra negra, escudo, estrelas e no verso o número 10. Ela estava habituada com finais, mas isso não a deixava menos ansiosa. Estranhamente encontrava-se a mais de 500 km do palco onde seria travada a batalha, o estádio do Maracanã. Ir ao estádio com os amigos em jogos decisivos era sem dúvida o seu programa preferido dos domingos. Mas ela não estava mais em terras cariocas e a TV de plasma de 42 polegadas substituiria o glorioso estádio naquela tarde. Continuando o seu ritual após vestir-se com o manto sagrado, desdobrou cuidadosamente a sua bandeira e a pendurou na varanda para que todos os que ali passassem soubessem que ali habitava um coração rubro negro. O sol ardia naquela tarde, o que deixava a bandeira com um ar ainda mais soberano. Ela estava só, mas não se deixou abater com este contratempo, um toque final antes do inicio do jogo… Colocar um CD com o hino do mais querido no aparelho e deixá-lo ligado para que em apenas um toque se desse início a comemoração.  Ela sabia que não seria um jogo fácil, mas acreditava como poucos no êxito de seu time.  Quando o arbitro apitou sinalizando o início da partida começava o seu martírio. Era pressão por todos os lados o esquema tático do treinador parecia não funcionar e numa pane da defesa Zé Roberto cruzou livre e Dodô também livre completou de carrinho a jogada do gol alvinegro. Ela sentiu o golpe, mas manteve a firmeza necessária para continuar acreditando. Mas o pior ainda estava por vir, tudo aconteceu muito rápido e talvez por esse motivo nenhum dos comentaristas da TV tenha sequer notado a farsa que foi o segundo gol do botafogo, quando um Lúcio Flávio se contorcendo em dores após receber uma falta recebe lépido e fagueiro a bola e sem dor alguma sai correndo com ela até chutar para o fundo das redes e sair comemorando. Ela estava indignada com o teatro do jogador e mais ainda com os comentários que ressaltavam o golaço do ator sem perceber que tudo o que aconteceu foi por pura malandragem.  Nesta hora ela percebeu que era ela e não o Lúcio Flávio o passageiro da agonia. Mas os deuses não deixariam tal folhetim impune, acreditava ela.  Ao final do primeiro tempo o placar era o de um desastre. Mas ela ainda acreditava e até telefonou para a mãe para dizer que aquilo não acabaria assim. E não acabaria mesmo. Os deuses deram a palavra final e o orgulho de um goleiro que para não ser driblado cometeu um pênalti inapelável o que o levou a ser expulso de campo. Fazendo em seguida gerar dentro dela um catártico grito de gol. O grito foi seguido pelo hino em alto e bom som e tudo mais que um solitário espectador tem direito. Não demorou muito para que em uma falha do goleiro reserva o contestadíssimo Souza fizesse mais um gol para os rubro negros. O grito dela agora era gutural, sua alma estava exasperada, não era a vitória. Não ainda! Agora o jogo estava empatado e com a alma inquieta ela espera pelo próximo domingo.